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Mundo

Foi sem querer querendo…..


Naquele distante tempo que ainda me parece tão perto, o Flamengo ainda tinha um time que impunha medo aos adversários. Ir ao Maracanã era uma prática corriqueira e grande parte dos finais de semana eu pegava uma carona com meus parceiros rubro negros e embicávamos na direção do então “maior do mundo”. Da Barra, bairro em que residia, até o Maraca, dependendo do trânsito podia levar-se cerca de meia hora. Foram nessas idas e vindas que eu soube da existência do rapaz. Durante a pequena viagem, meu parceiro Zecão Machado e outros “flanáticos” comentavam os episódios exibidos durante a semana. Vários bordões tornaram-se uma novidade para mim: “Sigam me os bons”, “Não contavam com minha astúcia”, “Foi sem querer querendo”, “Não se misture com essa gentalha” entre muitos outros. Quase sempre eu sentia-me um peixe fora d’água: “Mas que porra é essa?”. E a resposta era sempre a mesma: “Euuuuuuuu, o Chapolin Colorado”.


Lembro que tentei ver uma vez, com má vontade admito. Não fiquei sequer 30 segundos. Pensava como era possível que um bando de gente velha, com roupas dos anos 70 e vindos de um pais de terceiro mundo poderiam arrancar-me gargalhadas. Logo eu, que era, aliás continuo sendo, fã de Mr. Stan Laurel and Mr. Oliver Hard e apaixonado por Groucho, Chico, Harpo e Zeppo. Nesse dia eu devo ter acordado com o pé esquerdo. Pouco depois, já de bom humor, eu faria uma nova tentativa. Desta vez assisti até o final e nunca mais parei. Vale creditar uma grande parcela de culpa disto ao meu primo soteropolitano Marcelo, o cara conseguia decorar os textos e todos os anos em que passava o carnaval na capital baiana, a diversão em casa eram os programas do Chaves gravados no vídeo cassete.


Há muito tempo atrás, eu li em uma revista uma matéria na qual o título era: ”Chaves, a droga que faz a cabeça”. A revista questionava como um produto tão simples, com atores completamente esquisitos e desconhecidos, entre outros fatores, podia ser um campeão de audiência atingindo milhões de fãs, não apenas no Brasil mas em vários lugares do mundo.


Chaves representa, ainda, na sua melhor maneira a América Latina. Uma vila pobre, bem simples em que seus moradores convivem diariamente com as dificuldades que a vida lhes impõem. O personagem que dá o nome à série é um garoto órfão, da qual não tem pai e nunca foi apresentado a sua mãe (ao menos ele afirmava isso em um episódio). Sempre morto de fome, quase nunca consegue tomar o café da manhã e daria a vida por um bom almoço. Poderia ser uma feijoada, uma macarronada, bife com batatas fritas, mas não. O garoto fica feliz com um simples sanduiche de presunto. Embora tenha casa, mora no número 8 da vila, em nenhum episódio o pobre menino usufrui seu imóvel, tornando seu lugar de fuga um velho barril.
Quem tenta ajudar o menino é o seu vizinho, que nunca tem paciência com ele. O desempregado que vive de bicos informais (embora deixe claro que não goste de trabalhar) a fim de descolar algum trocado. Pai de uma menina, que é o cão em pessoa, seu Madruga convive com as injustiças sociais. A pobreza o rodeia e o atinge de forma tão severa, a ponto de nunca ter dinheiro nem para o pagamento do aluguel. Para não ser despejado o velho Madruga tem que ter imaginação e um raciocino rápido para tentar enrolar seu senhorio. Como se não bastassem esses problemas o pai da Chiquinha ainda tem que fugir da perseguição e dos tapas e surras da vizinha, na qual a maioria das vezes é inocente. O rapaz no entanto é dono de um grande coração. Seu Madruga se preocupa com a fome do Chaves e sempre que tem alguma comida em casa faz questão de dividir o pouco que tem com o menino, embora saibamos que nos episódios, o Chaves acaba ficando com 100% da bóia.
Dona Florinda e seu filho Kiko também passam dificuldades, embora a série nos remeta que mãe e filho possuem uma situação um pouco melhor do que o resto da vila. A causa poderia ser a aposentadoria deixada pelo pai, um marinheiro que caiu no mar e foi devorado por um tubarão. O dinheiro para o aluguel está sempre disponível, embora o programa nos dá a ideia de que Florinda não tem dinheiro para ir a um bom cabelereiro se cuidar e de vez em quando envie o filho a venda para que pendure as compras. A primeira dama da vila tem um pouco mais do que os outros mas adora dar uma cagada na cabeça da gentalha.
Dona Clotilde é a senhora idosa, infeliz no amor que procura em seu Madruga o homem dos seus sonhos. Pela idade é considerada pela molecada como a bruxa da vila. Qual de nós quando muito novos não tínhamos desconfianças de nossos vizinhos? Lembro-me de um alemão que morava no mesmo prédio na qual desconfiávamos que era um fugitivo de guerra.
Para finalizar o poder econômico que esmaga a pobreza. O dono da vila que tem carro próprio, só aparece na vila para cobrar aluguel, quando questionado sobre uma possível reforma se recusa a fazê-la e sempre recebe uma pancada do Chaves. De quebra seu Barriga ainda tem um filho, Nhonho que parece não lhe faltar saúde. O garoto está sempre comendo coisas boas e pela circunferência, semelhante ao pai, parece não padecerem de fome. Posso estar “viajando na maionese”, mas me ocorreu um detalhe. Em guerras desiguais, nas quais por exemplo a grande nação invade países menores em busca de ditadores, qual de nós não fica na falsa torcida para que o grande leve uma boa surra? Será que as pancadas do Chaves no poder econômico não seriam um exemplo do pequeno surrando o poderoso?
Outros personagens são bem curiosos se analisarmos. O professor Girafales, responsável pela educação da turminha é muito respeitado por todos. Isso realmente nos remete aos anos 70, quando a profissão era respeitada. Hoje em dia o professor linguiça apanharia dos alunos, isso se não levasse um tiro ou uma facada. Outra figura é Jaiminho, o carteiro. Servidor público o rapaz não quer muito trabalho e parece não ter medo de uma demissão. As cartas são os próprios moradores da vila que a procurem, pois o profissional tem medo da fadiga. Já fui em muitas repartições públicas em que o atendimento é bem ao estilo Jaiminho.


Se você, caro leitor, achou que o texto acima se parece com a realidade de vários municípios do nosso Brasil, saiba que não é coincidência. Por isso, e outros inúmeros detalhes, que Chaves é um sucesso. Trata-se de uma parte da nossa realidade, uma cópia de parte da nossa sociedade (embora acredito que nos últimos anos algumas coisas estão mudando para melhor). Como se não bastasse, Chaves ainda é feito com um humor inocente, sem a necessidade de ser apelativo e sem violência (apesar das surras que Madruguinha leva). Não se vê palavrões, conotações sexuais, atores e atrizes lindas com corpos esculturais e mulheres exibindo suas portentosas bundas para as câmeras, afinal o que as mesmas tem em bunda lhes falta em talento. Alguém aqui em sã consciência acha que Chaves é pior do que Zorra Total? As lições que Chaves nos dá são inúmeras: Madruga que não tem nada compartilha o pouco que tem com Chaves, o episódio em que um ladrão rouba a vila e Chaves é acusado, a celebre frase que Chaves fala para Madruga antes de levar um cascudo “que devemos amar as pessoas”.
Bolanos era genial em seu humor puro e simples, foi diretor, escritor e ator. Nunca esqueceu-se de homenagear os grandes. Lembro-me de episódios em que o mesmo aparecia de Chaplin e em outro de Stan e Laurel. Independente das brigas e processos judiciais entre Bolanos, Villagran e De Las Neves, não se pode negar a genialidade do mesmo. O mundo perdeu um grande humorista, justamente em uma sexta-feira o dia da semana em que comemoramos a alegria da chegada do fim de semana.


Senhor Bolanos, obrigado por fazer tanta gente feliz. Mas você poderia ter ficado um pouco mais com a gente, não é ? O que tem a dizer sobre isso? Deixar tanta gente triste em uma sexta-feira?
“Foi sem querer querendo………………………..”


TROFÉU VAI TOMAR UM UUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUU
Hoje não….fica para a próxima.

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